Folha, 100

View of a printing press in 11 Shop, Elswick Works, Newcastle upon Tyne, September 1946 (TWAM ref. 1027/5178)

Sou daqueles que toda manhã de domingo acompanhava o pai lendo a Folha por horas. Nem sei dizer o carinho que sinto pela folhinha, folhateen, caderno mundo (comecei a ler com afinco para acompanhar a 1ª Guerra no Iraque), esportes e assim foi seguindo minha trilha pelas letras até eu também passar a ler a Folha todo dia, da primeira à última página.

Os dedos tingidos de preto com a tinta das páginas confirmavam a voracidade da leitura e o desespero da minha mãe que algum deles encontrasse uma das alvas paredes das casas e apartamentos por onde passamos.

Rio de Janeiro. No rodapé da segunda página, as saudosas colunas do Cony, estão entre as maiores responsáveis por esse fogo que me propele a escrever.

Já saí com meus pais de banca em banca no sábado a noite para garantir edições da Folha que vinham com fascículos, como o Aurélio preto que resiste na estante deles, teve os mapas mundiais (hoje com o meu irmão), livros… a Folha era um Kinder Ovo dos jornais.

Um enigma me atormentou por anos após descobrir que alguns cadernos do jornal de domingo chegavam nas bancas durante a semana, para serem montados ali. Sim, sou daqueles que começava a ler a Folha de S. Paulo pelo relógio que indicava o horário de fechamento da edição. Atente, caro leitor, Folha de S. Paulo e não Folha de São Paulo, como uma querida professora de português me ensinou lá pela quinta série.

Em momentos bons, o jornal aparatava na porta em seu saquinho transparente; quando o caixa reduzia, as edições dependiam de caminhadas às bancas, mas sempre estavam ali pelo menos nos finais de semana. Meu avô lia a Folha de ontem: o vizinho toda manhã deixava no portão dele o jornal lido no dia anterior, talvez as notícias não mudassem tanto como hoje ou era falta do celular que agora derrama notícias a todo momento. A vó não resistia ao resumo das novelas publicado no caderno de TV.

Lembro de espiar por buracos recortados nas páginas e imaginar qual seria o texto tão relevante que foi levado? Ainda sobrava a divertida tarefa de completar a parte do texto do verso, involuntariamente arrancado do seu lugar em virtude da importância do seu colega do anverso.

Nesse mundo que tenta nos condicionar a ritmos opressores de consumo de conteúdo, ler cada notícia, cada nota de canto de página, com o tempo e a reflexão que os assuntos merecem, é um ato de rebeldia.

Me reconheci nas palavras do Márcio Rachkorsky, é interessante despertar para o fato que acompanhar os pais lendo a Folha foi um silencioso e importantíssimo incentivo à leitura. O Juca (me perdoem a intimidade), trouxe as lembranças que das brigas com o Jornal, birrento, deixei de assinar, mas não tem sensação melhor de fazer as pazes e voltar a ler o que entendo ser o periódico mais plural que temos no País.

Acompanho a coluna do ombudsman desde que foi criada, minhas paixões pelo jornalismo têm origem nesses textos. Sou desses que já leu o manual de redação.

Hoje leio a Folha “impressa” pelo aplicativo do Jornal. Resmungo com a falta de interatividade e a dificuldade para folhear cada edição, mas fico trêmulo só de pensar que essa edição “impressa”, a cada dia mais fit (infelizmente), possa ser extinta e eu lançado aos algoritmos caça-cliques dos sites de notícias (o folha.com não foge à regra).

A Folha chegou aos 100, o Márcio está chegando nos 50 e eu nos 40. Meus filhos não me verão imerso em um caderno aberto em V. Que impressão deixarei folheando a edição impressa na telinha do celular? Quem sabe nos 130 anos da Folha terei essa resposta… até lá!